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From: "Carlos da Fonte" <>
Subject: [BRAZIL-L] Gurgel
Date: Wed, 12 Jan 2000 23:06:51 -0000
*** Comentarios:
>Permitam-me ir de encontro às teorias correntes para a origem de Gurgel.
>Muitas das quais nem sequer mencionam a possível origem brasileira,
>fazendo-os provir (pelo menos um ramo), de José Correia do Amaral Gurgel,
>que emigrou para o Sergipe no século XVII.
Pelo amor de Deus, mande-me tudo o que você puder a respeito desse José
Correia do Amaral Gurgel. Aí pode estar a peça que fecha um monumental
grande quebra-cabeças.
Pupo e outros afirmam que a família Gurgel do Amaral/Amaral Gurgel formou-se
no Brasil na virada dos séculos XVI/XVII, passando daqui para Portugal,
África, França etc. Gostaria de checar se a possibilidade que você levanta
confirma ou nega essa versão.
*** Parece-me que o Pupo tinha razao, mas ver o outro e-mail, mais
pormenorizado
Mas não, não é isso o que me interessa mais.
Há uma dúvida sobre a ligação exata entre os Gurgel do Amaral do Nordeste do
Brasil e aqueles do Rio de Janeiro. Aldysio Gurgel do Amaral escreveu um
inventário de 240 páginas esmiuçando a descendência de Tucen (com essa
grafia mesmo, explico depois) e Domingas. No livro, defende uma hipótese.
Entretanto, pouco antes de morrer, ele me contou que estava passando a crer
em uma outra alternativa. Darei detalhes desta fascinante questão em breve;
talvez, o personagem que você cita traga uma nova luz a essa pesquisa (nova,
se dispusermos de dados; a "lenda" dos dois irmãos, um indo para o Norte,
outro para o Sul, não nos é estranha)
>Parece, porém, pelo já dito, que a hipótese brasileira seria mais antiga.
Para o que diz respeito a Tucen, talvez. Mas quanto ao ramo nordestino dos
Gurgel do Amaral, consideremos (perdão, primos do agreste) a questão
reaberta.
>Em bretão, GOUR = Homem , GELL = Moreno
>Lembrar que Saint-Malo fica justamente na Bretanha, pátria da maioria
>dos marinheiros franceses que se aventuraram ao sul das Américas, no
>início da sua história, nomeadamente os corsários.
>Aparentemente este sobrenome (ou alcunha), não sobreviveu como tal
>na Bretanha de hoje.
Esta etimologia sim apresenta consistência fonética e morfológica (além de
histórica) para figurar como uma hipótese a ser investigada ou até assumida
para posterior confirmação.
Uma questão: a pronúncia do G no bretão GELL se aproximaria mais do nosso J,
de um H ou de um G?
*** A pronuncia em bretao devera ser com G forte, como em galo.
Penso todavia que isto nao invalida a hipotese.
O Toussaint diz-se de origem bavara. Isto talvez fosse um subterfugio,
porque os franceses
estavam associados aos huguenotes, mais ainda no Rio de Janeiro que
lutava contra a implantacao da Franca Antartica. Devemos lembrar que
a Alemanha, como pais, e uma invencao recente. A Baviera, porem
e bem conhecida pela sua tradicao de catolicismo que deveria ser
conhecida pelos portugueses de entao.
No seculo XVI a Bretanha manteve-se catolica, mas a Normandia (onde esta Le
Havre) era
huguenote. Mas a forte concentraçao era ao sul de França o que deve
ter posto os cabelos em pe aos espanhois, dando aos franceses na
generalidade
o apodo de hereges, porque era melhor prevenir ...
Se era bavaro, devera ter adotado um nome semelhante ou traduzido do
que teria originalmente. No primeiro caso tratar-se-ia de uma coincidencia.
No segundo caso, talvez fosse uma traducao de Dunkelmann,
por exemplo (existe ?, tem brasao ?) para Gourgell, o que duvido.
Se era bretao, e sou mais inclinado a esta hipotese, adoptaria ou adaptaria
o nome ao frances: Toussaint, mas conservaria o sobrenome de familia,
Gourgell. Inevitavel seria que pronunciasse o nome com sotaque frances.
E preciso nao esquecer que a Bretanha so passou a pertencer a Franca
a partir de 1491 e desde entao uma longa luta cultural contra a lingua
breta foi sendo desenvolvida, infelizmente ate muito recentemente. Muitos
ainda se lembram da suprema afronta dos cartazes publicos a anunciar:
"Il est defense de cracher et parler breton" (e proibido cuspir e falar
bretao).
Por estas razoes, um corsario a serviço do rei de França deveria sentir-se
pouco a vontade para revelar as suas habilidades linguisticas.
Tambem penso que nao seria possivel baptizar crianças com nomes
bretoes, mas sim com os equivalentes franceses. Quanto ao sobrenome,
isto seria muito mais dificil de impor (lembrar a polemica recente da
Onomastica Registral).
Um exemplo tambem recente: na Catalunha de Franco era proibido
trazer nomes de baptismo catalaes.
O Nome Gurgel - com essa grafia; nada de Grügel, Gourgelt, Gürgell, Gourgel
etc - é bastante comum na Bavária. Já suas variantes ortográficas não são
comuns em lugar algum que eu tenha pesquisado - incluindo Alsácia, que
parentes me juraram estar repleta de Gürgell. Tucen, interrogado, afirmou
que seu pai era bávaro e sua mãe, francesa. É coerente com o que se pode
contatar. A etimologia bretã não é necessariamente uma contradição; afinal,
os povos celtas não eram exatamente (César que o diga) uma minoria na
Europa, e a definição de suas fronteiras demográficas e culturais sempre foi
fugidia.
*** Esta hipotese tambem e interessante. Nao esquecer, porem, que poderia
dar-se o caso, de ter-se originado em algum outro lugar.
A Baviera, contudo, estava bem afastada da zona de influencia celtica,
estando
integrado nos povos germanicos, ao norte dos Ilirios.
Abraços,
Carlos da Fonte
(Maia-Portugal)
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