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From: Luis Leal Filho <>
Subject: [BRAZIL-L] Educação e Soberania - Razão Crítica
Date: Thu, 14 Jun 2001 16:02:51 -0300
In-Reply-To: <006501c0f49a$6ce594e0$48f0bfc8@internet>


Meu caro Aguinaldo,

Não me queira mal pelo que escrevi, pois não era minha intenção
desrespeitar nem os vivos, nem os mortos. Verdade que apresentei uma versão
piegas, talvez "despudorada"...
Não, não acho que o povo brasileiro seja deseducado. Não tenho dados
referentes ao Brasil inteiro para escrever sobre a educação e a instrução
(muitas vezes os conceitos se confundem. Há pessoas instruidas e mal
educadas e pessoas sem instrução, bem educadas), mas, posso lhe dizer que
se fizessem um estudo para radiografar os nives de instrução do nosso povo,
os índices seriam alarmantes e capaz de indignar qualquer cidadão
civilizado. A situação do ensino no Brasil não é das melhores. Se investe
pouco nessas áreas, principalmente no Nordeste. Essa política de oferecer
pouco saber ao povo é muito antiga e vem desde os tempos coloniais e visa a
perpertuação de determinadas elites no poder. O período do café-com-leite,
foi bom para Minas e São Paulo, principalmente. O Rio beneficiava-se da
condição de Distrito Federal e nesse eixo tudo era "divino maravilhoso".
Esse progresso era irradiado para o sul do Brasil... para outras regiões,
migalhas. Com JK houve melhoras e Brasília deveria irradiar o progresso.
Com Jango houve a esperança e o sonho de se construir uma nação pujante.
Mas os acertos foram tantos que este último governo foi derrubado pelo
capital internacional aliado ao nacional, tendo a CIA como principal agente
desestabilizador da democracia...
Vou lhe citar alguns dados sobre a Bahia e vc vai verificar que, talvez,
apenas a faixa litorânea do Rio de Janeiro até o RGS é que apresentam
sensiveis melhoras, mas posso estar equivocado, posto que não tenho dados
estatisticos em mãos neste momento.
Pois bem, em 1942 tinhamos na Bahia uma população de 90% de analfabetos!!!
Quer dizer, 10% sabiam ler e escrever. Se fizessem um estudo para
identificar os percentuais de escolaridade esse percentual se agravaria e
teriamos uns 2% de população regularmente instruida, sem que isso venha
significar uma população com o senso crítico desenvolvido. De 1942 aos
tempos atuais houve uma pequena melhora, mas o quadro permanece assustador.
Os governantes para evitarem estatisticas desabonadoras passaram a adotar
um modelo educacional em que se objetiva aprovar os alunos e jamais
reprová-los. O pressuposto é de que, na escola, o cidadão sairá ao menos
educado, ainda que sem a instrução necessária. Quando se faz as
estatisticas verifica-se apenas o grau de escolaridade e jamais o de
instrução. Isso enseja uma visão deformada da realidade e melhora a imagem
dos governos. A "ignorância" aqui no Brasil é necessária para que os
governantes se perpetuem no poder. O atual Ministro da Educação até faz
força, tenta acabar com o vestibular, quer fazer, mas não consegue.
Brizola e Darcy Ribeiro tentaram mudar a realidade educacional,
amparando-se no modelo educacional idealizado por Anísio Teixeira.
Mas há resistências. Cheguei a conhecer os CIEPs e até experimentei a
comida que lá era servida. Não se joga fora um projeto daqueles quando se
quer mudar uma realidade aviltante.

Na Bahia temos apenas uma Universidade Federal ! Sei que a realidade no
Rio, SP, MG, RGS é diferente da nossa. O Nordeste é o "curral eleitoral"
de antigos "coronéis", onde se investe muito mal em todos os setores. A
perpetuação da Seca já se assemelha a um crime! É inadimissivel permitir
que o Nordeste fique a receber migalhas do poder federal e que essas
migalhas sequer sejam interiorizadas, restringindo-se às faixas litorâneas
de um Brasil que parece feito para "inglês ver". O Brasil carece de muitas
mudanças, profundas, mas estas mudanças esbarram em interesses diversos que
também envolvem interesses de classe.
Um colisteiro cita a California e mostra como se pode mudar uma realidade e
transforma-la por completo, desde que haja vontade política. A questão da
seca no Brasil chega a parecer um crime ...

Mas voltemos ao eixo central, sem discutirmos Monarquia ou República. Sei
que vc tem uma especial admiração pelos sucessores de D. João VI. Eu lhe
digo que tenho admiração por D. Pedro I, D. Pedro II, a Princesa Isabel e
tantas outras personalidades. Respeito todo o passado de cada um deles. Mas
com isso não posso perder o meu senso crítico. Vc citou D. João VI, certo?
Pois eu acho que D. João VI foi um mau governante. Nisso estamos colidindo,
o que é natural e até benefico.
O que D. João fez no Brasil, fez pq não tinha outra alternativa. Se tivesse
ficado em Portugal, não teria feito nada. Também não foi bom para Portugal.
Ouso dizer isso.
Ele herdou uma malfadada herança do Marquês de Pombal, que é muito
admirado, mas eu tenho minhas reservas...

Vc tem razão ao dizer que certas colocações levam à perda da auto-estima
nacionalista e é verdade. Concordo! Mas eu não lancei o meu pensamento para
o "povão" que sequer tem condições de ter uma linha telefônica e a energia
elétrica, quando tem, não passa de "gato"; escrevi para uma elite que
desfruta e goza de prazeres que a grande maioria do nosso povo não goza. Na
verdade, caro Aguinaldo, vc é uma pessoa que pode jogar aos mãos para o céu
e agradecer por fazer parte de um grupo seleto de pessoas que se dão ao
luxo de estudar e praticar genealogia como por diletantismo. Acho isso
muito bom e gostaria que todos pudessem ter direitos iguais aos nossos que
somos também desiguais. Concordo que fui piegas, sim, mas não descreio do
nosso povo e tenho um sentimento de nacionalidade muito forte dentro de
mim. É este sentimento que muitas vezes me leva a criticar veementemente
governos que desnacionalizam e que se deixam submeter a interesses que não
têm nada a ver com o da construção de uma Pátria Soberana de verdade. Hoje
voltamos a uma situação vexatória e abrimos as portas para o domínio
estrangeiro. Estamos sendo neo-colonizados, novamente.
Os EUA acham que a Amazônia já não nos pertece, e nisso vão se enganar
redondamente, como se enganaram com o Vietnã; pode escrever isso, pq a
Amazônia Barsileira jamais vai deixar de ser do Brasil.

O pais vive à mercê do que o FMI dita. O nosso presidente deveria fazer uma
profunda reflexão sobre o destino do Brasil e mudar.

Parece que é tarefa fácil, mas não é... Bem sei que existem regras
internacionais no mundo do capital. Mas é preciso salvaguardar a nossa
soberania e reavaliar os desatres sucessivos que estão se dando. Em país
sério não se privatiza energia, nem a água.

Quanto ao que vc classifica de desrespeito eu não tenho a mesma forma de
interpretação. O exercício da cidadania me permite o direito de criticar e
disso não devemos abrir mão. Mas eu aplaudo a defesa que fez do seu ponto
de vista e da defesa que faz dos membros da família real, que, embora
mortos, respeito sem perder a consciência crítica, jamais!
Um cordial abraço republicano, de um eterno aprendiz.
Luis Leal Filho

At 03:22 14/06/01 -0300, you wrote:
>Caro Luís Leal, deixando de lado, por ora, a questão Monarquia versus
República (temos, ao que parece, visões muito diferentes de nosso passado
histórico, em particular a História brasileira no século XIX), devo
dizer-lhe que não compartilho de sua opinião quanto ao "deboche
brasileiro". Acho isso, inclusive, extramamente negativo para nossa
auto-estima enquanto povo.
>Não sei, naturalmente, se você se referiu especificamente ao Rio de
Janeiro e à Bahia, como me pareceu ao ler sua mensagem, mas em São Paulo,
seguramente, posso afirmar com todas as letras que não somos assim. Em
MInas, também não, e acredito que em vários outros estados da Federação o
deboche é algo circunscrito à gente mal-educada.
>Não se debocha simplesmente de um governante - seja Presidente da
República ou Imperador. Você não acha? Qual o motivo do deboche ou da falta
de respeito? A informalidade do povo? Mas, é bom frisar, uma coisa é
informalidade, outra, falta de educação. Não concorda? Criticar-se um
governante é necessário e é prática sadia da Democracia, mas desrespeitá-lo
ou brincar com ele é outra coisa, no meu entender. Fere o princípio da
representatividade!
>Vejo o Brasil de outra forma, se me permite dizer: povo informal nos
costumes e na maneira de ser, na linguagem, mas não mal educado ou
grosseiro. Pelo menos, é como vejo à minha volta, no meu círculo, no que
leio e observo de nosso cotidiano.
>Quanto ao Grito do Ipiranga, acredito que tenha sido realmente um Grito
pela Independência - e não um grito de dor ou físico (isso, faz parte do
deboche e da auto-imagem negativa que muitos têm do País e do povo). Dom
Pedro me merece todo o respeito - se você analisar sua biografia
(naturalmente falha como ser humano que era), pode perceber o quanto fez
pelo Brasil e por Portugal (não é à toa que sua estátua, como herói
nacional, encontra-se no Rossio, em Lisboa, como Dom Pedro IV, e no
belíssimo Monumento da Independência, no Ipiranga, em São Paulo - debaixo
do qual fica a Capela Imperial com seus despojos e das Imperatrizes D.
Leopoldina e D. Amélia).
>D. Pedro II, então, nem se fala: respeito é pouco, tenho por ele a maior
admiração - melhor um governante filósofo e cientista, que um "analfabeto",
digamos assim para simplificar, como alguns generais que nos governaram.
Como escreveu o grande Monteiro Lobato, ao explicar o porque do exílio do
Imperador pelo Governo Provisório Republicano: "provavelmente, acharam que
o que é muito bom, não presta!".
>
> Saudações republicanas, Aguinaldo Ribeiro da Cunha Filho



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